Participar da Realidade Não Significa Controlar a Realidade
Por ARI BARBOSA
Uma das distorções mais perigosas produzidas por certas interpretações da manifestação é a ideia de que tudo aquilo que acontece na vida de uma pessoa foi criado por ela.
A frase costuma aparecer revestida de espiritualidade: você atraiu essa realidade; sua frequência produziu esse acontecimento; alguma parte de você escolheu passar por isso.
Em situações agradáveis, esse tipo de afirmação pode oferecer uma sensação de poder. Diante do sofrimento, porém, pode se tornar cruel.
Nem tudo o que nos acontece foi escolhido por nós.
Essa distinção foi um dos limites que estabeleci na Live MANIFESTAÇÃO FUNCIONA? Então Por Que Sua Realidade Continua a Mesma?. Reconhecer nossa participação na realidade não autoriza transformar cada sofrimento em prova de uma falha espiritual. Uma compreensão responsável da manifestação precisa conservar, ao mesmo tempo, participação e limite.
Vivemos numa realidade compartilhada
Outras pessoas agem, desejam, decidem e interferem no mundo. Instituições possuem poder. Empresas tomam decisões que atingem milhares de pessoas. Governos alteram leis e condições econômicas. Há acidentes, doenças, violência e acontecimentos que chegam à vida sem que exista qualquer decisão individual capaz de explicá-los de maneira honesta.
Dizer isso não enfraquece a ideia de manifestação. Pelo contrário: estabelece o limite necessário para que ela permaneça intelectualmente e eticamente consistente.
Participação não significa controle.
Uma pessoa pode participar da realidade sem ser sua autora exclusiva.
Quando manifestação vira culpa
Esse ponto parece simples, mas resolve um problema profundo. Se acreditamos que manifestação equivale a controle absoluto, qualquer acontecimento indesejado precisa ser interpretado como fracasso espiritual. A pessoa perde um trabalho e começa a procurar qual pensamento produziu a demissão. Adoece e se pergunta qual vibração inadequada criou aquela condição. Sofre uma violência e, além da própria dor, recebe ainda a acusação implícita de ter atraído aquilo.
Essa espiritualidade não devolve Soberania. Ela produz culpa.
A realidade humana é muito mais complexa.
Nossa vontade participa, mas convive com outras vontades. Nossa Atenção participa, mas não governa todas as condições. Nossas escolhas têm consequências, mas não anulam aquilo que outras pessoas e estruturas podem fazer.
Soberania começa na fronteira entre controle e participação
O fato de não controlarmos tudo, contudo, não significa que nada nos pertença. É justamente aqui que começa a Soberania.
Soberania não é a capacidade de obrigar a realidade a obedecer. É a capacidade de reconhecer aquilo que ainda permanece sob nossa responsabilidade sem entregar também essa parte ao que não controlamos.
Uma empresa pode decidir nos demitir. Essa decisão talvez não tenha qualquer relação com nossos desejos, pensamentos ou práticas. Pode resultar de uma reorganização, de uma crise econômica ou de critérios completamente externos a nós.
O acontecimento chega. A partir dali, começa outro campo.
Existe uma identidade que estava ligada àquela função. Há recursos que precisarão ser reorganizados. Existem decisões possíveis, outras impossíveis e caminhos ainda desconhecidos.
Não controlamos aquilo que aconteceu. Mas ainda participamos daquilo que acontecerá a partir de agora.
Participar não é responder positivamente a tudo
Essa distinção é muito diferente de dizer que basta escolher uma resposta positiva.
Há acontecimentos que nos ferem, desorganizam e reduzem temporariamente nossa capacidade de agir. Não precisamos transformar cada sofrimento em exercício de produtividade espiritual.
Participar pode significar, durante algum tempo, apenas reconhecer o que aconteceu e recuperar condições mínimas para voltar a decidir.
Soberania não exige invulnerabilidade. Ela exige apenas que não transformemos limitação em renúncia permanente.
A política mostra com clareza o limite do controle
O mesmo raciocínio vale para a política e para o mundo coletivo.
Podemos votar, participar de movimentos, apoiar projetos, nos posicionar, dialogar e realizar escolhas econômicas. Todas essas ações possuem efeitos. Nenhuma delas nos concede controle individual sobre o funcionamento de uma sociedade inteira.
Quando confundimos participação com garantia de resultado, cada derrota coletiva se transforma numa derrota existencial.
A pessoa acompanha compulsivamente cada notícia porque sente que precisa permanecer vigilante. Uma decisão política produz indignação. Outra gera esperança. O próximo julgamento, a próxima votação ou a próxima eleição parecem sempre carregar a promessa de finalmente resolver aquilo que a anterior não resolveu.
Com o passar do tempo, a pessoa pode saber cada vez mais sobre o conflito público e ter cada vez menos espaço interior para a própria vida.
Informação e captura da Atenção não são a mesma coisa
Há uma diferença entre informação e captura da Atenção.
Precisamos conhecer parte da realidade para tomar decisões. Mas informação pode se transformar em consumo emocional. Passamos horas acompanhando acontecimentos sobre os quais nossa capacidade de interferência direta é mínima. Terminamos mais informados, porém não necessariamente mais capazes de agir.
A Soberania exige proporção.
Não significa ignorar o mundo. Significa não oferecer ao mundo também aquilo que ele não pediu e não precisa receber: toda a nossa Atenção, todo o nosso estado interior, todo o tempo no qual poderíamos estar construindo alguma coisa que ainda depende de nós.
Há uma pergunta simples que pode ajudar depois de um longo período consumindo notícias: o que eu sei agora que modificará alguma decisão concreta?
Às vezes, haverá uma resposta clara. Em outras ocasiões, perceberemos que não buscávamos propriamente informação. Estávamos repetindo uma experiência emocional.
Atenção participa da realidade antes que o acontecimento chegue
Isso importa porque Atenção não é neutra.
Aquilo que recebe continuamente nossa Atenção ocupa espaço na experiência. O medo repetido modifica aquilo que percebemos. A indignação constante altera nossas respostas. A expectativa ininterrupta de uma crise nos faz viver, antecipadamente, dentro dela.
Isso não quer dizer que tudo aquilo em que pensamos vá acontecer. Quer dizer que aquilo em que permanecemos mentalmente começa a participar da maneira como vivemos antes mesmo que qualquer acontecimento externo ocorra.
A diferença é fundamental.
Uma concepção madura de manifestação pergunta onde ainda existe participação
Uma concepção madura de manifestação não promete que podemos controlar o mundo. Ela nos pergunta onde ainda existe participação.
Às vezes, essa participação será enorme. Em outros momentos, muito pequena.
Pode estar na decisão de buscar outro trabalho, organizar um recurso, iniciar uma conversa, proteger alguém, votar, denunciar uma injustiça, estudar uma alternativa ou simplesmente deixar de dedicar cinco horas do dia a um acontecimento sobre o qual nada será decidido por nós.
Existe dignidade em reconhecer limites.
Grande parte do sofrimento contemporâneo nasce da tentativa de responder emocionalmente a uma quantidade de realidade muito maior do que qualquer pessoa é capaz de processar.
Recebemos todos os dias problemas econômicos, guerras, crises ambientais, conflitos políticos e sofrimentos individuais ocorridos em diferentes partes do mundo. A tecnologia ampliou extraordinariamente nossa capacidade de testemunhar acontecimentos.
Ela não ampliou na mesma proporção nossa capacidade de interferir neles.
Essa diferença pode produzir uma espécie de impotência permanente.
A pessoa está emocionalmente presente em centenas de situações nas quais não possui participação concreta. Ao mesmo tempo, começa a perder presença justamente onde sua ação poderia produzir algum resultado.
Retirar Atenção também pode ser responsabilidade
Retirar Atenção de determinados campos não é necessariamente indiferença. Pode ser um ato de responsabilidade.
Uma escola construída com consistência, uma família reorganizada, um conhecimento preservado, um trabalho realizado com seriedade ou uma comunidade que consegue sustentar determinados valores são formas concretas de participação na realidade.
Nenhuma delas resolve sozinha os grandes problemas do mundo. Mas criam lugares nos quais outra realidade consegue adquirir forma.
A manifestação coletiva precisa de Sustentação
A manifestação coletiva depende também disso.
Não basta desejar que o mundo seja diferente. As estruturas que criticamos possuem continuidade. Elas contam com recursos, processos, memória e pessoas trabalhando diariamente para preservá-las.
Uma indignação enorme, se não encontra organização, pode desaparecer rapidamente.
Intensidade não substitui Sustentação.
Isso não significa que cada indivíduo precise se transformar num militante de todas as causas em que acredita. Significa reconhecer que realidade coletiva também é produzida por aquilo que conseguimos sustentar.
O espelho coletivo também está perto
Às vezes, nossa maior contribuição não estará em destruir imediatamente uma estrutura que consideramos inadequada, mas em deixar de reproduzi-la no espaço em que possuímos autoridade.
Podemos desejar instituições menos autoritárias e continuar incapazes de tolerar uma discordância dentro de casa.
Podemos criticar a concentração de poder e buscar controlar todos aqueles que dependem de nós.
Podemos defender liberdade no mundo enquanto punimos qualquer pessoa próxima que exerça uma liberdade da qual não gostamos.
O espelho coletivo não está apenas “lá fora”. A realidade que criticamos também pode encontrar continuidade através das relações que produzimos.
Isso não nos torna culpados pelo mundo. Torna-nos participantes dele.
Culpa fecha; responsabilidade abre um campo de ação
Existe uma diferença enorme entre culpa e responsabilidade.
A culpa tende a fechar. Responsabilidade abre um campo de ação.
Não sou responsável por tudo o que existe. Não controlo todas as condições. Não posso impedir sozinho que outras pessoas ajam de maneiras contrárias àquilo que considero correto.
Mas existem escolhas que ainda passam por mim. Existem relações nas quais minha presença interfere. Existe Atenção que posso retirar. Existem recursos que posso oferecer. Existem realidades que posso deixar de alimentar.
Soberania começa quando conseguimos reconhecer essa fronteira.
De um lado, aquilo que não depende de nós. Do outro, aquilo que o mundo ainda não pode fazer em nosso lugar.
Viver com Soberania não significa acreditar que tudo será possível. Significa não transformar aquilo que não podemos controlar numa autorização para abandonar também aquilo que ainda podemos construir.
Assista à Live e aprofunde a leitura
A conversa completa está disponível em MANIFESTAÇÃO FUNCIONA? Então Por Que Sua Realidade Continua a Mesma?, no canal Ari Barbosa. Para conhecer os fundamentos que orientam este artigo, acesse também a apresentação da Metamagia e os conteúdos da Escola de Magia.
ARI BARBOSA é autor de Metamagia e A Falha Oculta e fundador da Escola de Magia. Desenvolve estudos e ensinamentos sobre Consciência, organização da experiência e prática da Metamagia.

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