Quando Rejeitar Ainda Mantém Você Preso
Por ARI BARBOSA
É possível dedicar uma parte enorme da vida exatamente àquilo que rejeitamos. A discordância permanece, mas a liberdade de decidir quanto envolvimento aquele assunto merece vai diminuindo. Chega um momento em que a provocação já encontra em nós uma resposta pronta, antes mesmo de uma escolha.
Essa é uma das armadilhas mais discretas da Atenção. Acreditamos que estamos afastados de alguma coisa porque somos contra ela, quando, na prática, continuamos acompanhando tudo, respondendo por dentro e aguardando a próxima oportunidade de confirmar que estávamos certos.
Rejeitar não encerra automaticamente uma relação. Em alguns casos, a rejeição se torna justamente a forma pela qual conservamos aquilo no centro da experiência.
Ter razão não define quanto espaço um assunto deve receber
Há críticas necessárias. Existem injustiças, problemas e situações que precisam de resposta. A questão não é abandonar o discernimento nem usar espiritualidade como justificativa para indiferença. Precisamos compreender qual participação nos cabe e reconhecer quando a repetição já não melhora a compreensão nem ajuda a agir.
Podemos ter razão sobre um problema e, ainda assim, precisar rever a relação que estabelecemos com ele. Ter razão não concede imunidade ao desgaste. Também não transforma toda hora dedicada ao assunto em contribuição real.
Quando a discordância vira identidade
O vínculo se torna mais difícil de rever quando começa a participar da identidade. A pessoa se reconhece como aquela que denuncia, que percebe o que os outros não percebem, que responde sempre que encontra uma incoerência. Aos poucos, interromper uma discussão passa a parecer uma traição de si mesma.
Surge então uma pergunta desconfortável: quem você acredita que deixaria de ser se parasse de cumprir esse papel o tempo inteiro?
A Soberania também envolve a liberdade de reconhecer um assunto sem assumir um compromisso permanente com ele. Se cada provocação encontra em você uma resposta obrigatória, vale examinar quanto daquele envolvimento ainda está sendo escolhido.
A indignação também oferece recompensa
Alguns vínculos permanecem porque, apesar do desgaste, oferecem alguma satisfação. A indignação pode produzir sensação de força. Julgar a incoerência alheia pode confirmar nossa própria lucidez. Discutir a vida dos outros pode nos manter num lugar relativamente seguro, porque ali avaliamos sem precisar nos expor ao risco de começar algo nosso.
Enquanto estamos dizendo o que outra pessoa deveria fazer, nossa competência permanece preservada na imaginação. Quando começamos a realizar, encontramos os nossos próprios limites. Por isso, em certos momentos, a dispersão precisa ser examinada também como forma de adiamento.
O envolvimento distante pode proteger você do que está perto
Existe uma conversa que precisa acontecer, uma decisão que está sendo evitada, uma etapa de trabalho que ainda não sabemos realizar. Mas sempre aparece uma urgência distante capaz de nos manter ocupados sem nos aproximar desse ponto.
O problema não está em acompanhar o que acontece no mundo. Está em perder a medida. Quando o distante recebe toda a energia emocional e aquilo que depende de nós fica continuamente para depois, a Atenção deixou de servir ao discernimento e começou a servir ao adiamento.
“Isso não é da minha conta” também exige Discernimento
A expressão não pode virar desculpa para omissão. Há situações que pedem nossa participação e não desaparecem quando desviamos o olhar. Nesses casos, a Atenção bem dirigida precisa nos aproximar da responsabilidade que cabe assumir.
Depois de compreender e responder, porém, podemos perguntar se continuar expostos ao assunto acrescenta algo ao que conseguimos fazer. Essa pergunta devolve proporção. Ela permite distinguir responsabilidade de captura.
Liberdade também é poder encerrar
Há envolvimentos que já cumpriram sua função e continuam ativos por hábito. A liberdade aparece quando conseguimos reconhecer o momento de encerrar, rever ou limitar aquilo que já não precisa permanecer conosco.
Isso pode significar não responder a mais uma provocação, interromper uma exposição que deixou de informar, deixar de acompanhar um conflito no qual nenhuma ação adicional depende de nós ou simplesmente devolver presença a alguma coisa que está esperando há muito tempo.
Recuperar Atenção não é negar a realidade. É deixar de oferecer residência permanente àquilo que já recebeu a resposta necessária. Em muitos casos, a Soberania começa exatamente aí: quando podemos reconhecer um assunto sem permitir que ele continue decidindo, sozinho, onde nossa Presença irá morar.
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ARI BARBOSA é autor de Metamagia e A Falha Oculta e fundador da Escola de Magia. Desenvolve estudos e ensinamentos sobre Consciência, organização da experiência e prática da Metamagia.
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