O Rosto de nossas verdades

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Egrégora - AriBarbosa

René Descartes, do auge de seu pragmatismo científico, comentou certa vez que muitas das coisas que lhe pareciam verdadeiras no princípio, quando as concebia, acabavam por se tornarem falsas quando colocadas em prática.

Se até mesmo o pai do modernismo científico se verga a sua própria infantilidade intelectual na formulação de conceitos, o que dirá de nós, os imperfeitos até mesmo na sinceridade, que no máximo ocupamos as patentes ilusórias e temporais de “buscadores da verdade” nesse desengonçado exército de Brancaleone.

Tudo nos leva a crer que exista mesmo uma torcida inconsciente, lasciva e bem pouco honesta do nosso ego em querer a todo custo cientificar detalhes pouco factíveis na pauta de nossas crenças, particularmente aquelas onde estamos depositando momentaneamente a nossa fé. De fato essa tal imaculada e “verdadeira verdade” não parece mesmo ser desse mundo, se é que seja possível existir em algum.

Melhor seria se pudéssemos ser mais solidários conosco, cúmplices da singeleza oferecida pela dúvida, ao buscarmos ser o mais honesto que possamos com nossas limitações de compreensão, entendendo e aceitando o fato de que um oceano jamais pode caber em um copo d’água. Talvez apenas essa constatação algébrica seria capaz de nos blindar “das certezas” que diariamente nos assolam, que persistem em afirmar categoricamente e a todo momento que “finalmente” estamos no caminho certo e “até que enfim” não mais nos perderemos na noite escura do erro.

Nosso pavor de estarmos novamente num caminho que julgamos “errado” petrifica nossa capacidade de discernimento, conduzindo a observação dos fatos apenas para o “umbigo de nossa própria fé”. Sim, afinal tudo não passa mesmo de fé. Estatisticamente sabemos que já trilhamos um sem fim de caminhos que nada tinham de retos e, sejamos bem honestos, ao menos de forma estatística temos muita evidência de que possamos estar novamente em erro, pelo menos a luz da sempre crítica e ácida indisposição com que tratamos nossa jornada de aprendizados. Realmente somos muito pouco generosos com nossas limitações.

Como diria o Gato para Alice em seu país das maravilhas, “… para quem não sabe onde ir, qualquer caminho é um bom caminho”. A verdade me parece que segue por essa mesma trilha, sendo que essa ditosa senhora parece ser mesmo muito tímida e jamais se mostra em sua plenitude. Será que até nisso ela é elegante?

Talvez a verdade não se mostre mesmo por pudor, pois toda farsa é despudoradamente desprovida de modéstia. O rosto feio de nossas verdades não nos deixa negar o quanto podemos ser convenientemente libertinos com as nossas convicções.

Sejamos, portanto, complacentes com nossas próprias crenças, já que elas parecem mesmo não passar disso.

Leitura recomendada:


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