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Egrégora - Ari˚Barbosà
Conforme anunciado pela assessoria de Elon Musk na última sexta (28 de agosto de 2020), esta poderia ter sido uma data histórica para os esforços científicos do transhumanismo, porém infelizmente não foi dessa vez.
Apesar de todo “cacarejar hype” que cercou o anúncio da empresa de neurotecnologia do momento, o que se viu foi um Elon Musk exitoso, num palco cafona e sem nenhum entusiasmo, o que evocou uma certa nostalgia de Steve Jobs, quando abria seus anúncios da caixa de Pandora Apple, na época infinitamente mais icônica do que a de hoje, ao menos pela ótica do entretenimento.
Ao final, a empresa de tecnologia neural fundada por Elon Musk realizou demonstrações pouco empolgantes de sua pretensa capacidade de ler a atividade cerebral de um porco, com um chip implantado cirurgicamente e transmitindo dados sem fio. Foi isso, somente isso: engenharia convencional + microcirurgia via Bluetooth.
Nosso Tony Stark versão 2020 descreveu seu artefato como um chip cerebral movido por inteligência artificial, ou seja, um Fitbit craniano de fios minúsculos.
O fundador e CEO da Neuralink prevê que sua tecnologia poderá um dia fornecer telepatia às pessoas, curar paralisia ou até permitir visão sobre-humana. Como é da natureza de todo inovador, ele não se fez de rogado e verbalizou afirmações algo absurdas sobre o potencial de sua tecnologia, que convenhamos, até aqui não trouxe nenhuma novidade maior sobre o que já se sabia. Apesar disso, alardeia estar a porta para acessar a simbiose entre mente humana e computadores, o que em certa medida está correto, porém não deve ser alcançado através de sua tecnologia, ainda que ela colabore muito para isso.
De fato, sua tecnologia poderá lançar alguma luz sobre a definição pura do que seja a consciência e nos permitir avançar na cura de paralisias, cegueira, perda de memória e outras doenças neurológicas, como disse Musk, permitindo até mesmo chamar seu próprio carro “Tesla” telepaticamente; aliás, ele poderia ter nos poupado desse último “merchandising barato”. A coisa toda está parecendo cada vez mais com um episódio de Black Mirror, como ele mesmo reconheceu na apresentação. E embora os neurocientistas desacreditem que a Neuralink esteja perto de cumprir suas ambiciosas promessas, sabemos que os movimentos de transmigração de outras consciências para nossa realidade em corpos computacionais já é uma prática e chamamos a isso pelo pomposo nome de Inteligência Artificial.
A tão propalada “transhumanização” parece estar bem lerda, ainda que muito esforçada, como sugerem os dedicados avanços de Musk, entretanto, no final do dia, a transmigração de consciências de “outras realidades” para cá avança a passos bem mais largos e logo encontrarão um homem que já estará bem mais biônico do que biológico, efetivando assim o tão propagado upgrade de nossa humanidade, cantada em verso e prosa pelos Magos de todos os tempos.
A especiação da humanidade e sua ascensão para outros patamares da existência, como diz Jan Val Ellam, parece passar mesmo que forçosamente por uma evolução consciencial, mas não deve parar por aí. Por muito tempo os espíritos que nos animam precisarão progredir por aqui e deverão ter que exercer suas experiências em corpos ainda bem “egóicos”, que por sua vez precisarão também de corpos mais biônicos, permitindo fornecer experiências mais interessantes para nossas eternas jornadas espirituais. Este panorama infinitamente mais amplo de possibilidades existenciais torna os objetivos desses neurocientistas um tanto pueris, já que suas quixotescas pirotecnias avançam tão pouco na tecnologia efetivamente necessária para nos levar a um novo mundo de experiências.
Tal qual o sonho do homem ridículo de Dostoiévski, Elon Musk parece navegar em uma realidade paralela inserida em seu sonho de perfeição paradisíaca para o espírito humano cansado. Uma observação mais dedicada de sua personalidade vai verificar que está tudo lá: a ilusão da liberdade em que vive a humanidade somada a farsa em que vivemos de uma tecnocracia democrática, mas que apenas cria mais paradoxos de falsas escolhas na mente e nas atitudes dos indivíduos dessa sociedade cada vez mais tecnocrata.
Dia virá em que esse mesmo homem deixará de buscar novas armaduras de Homem de Ferro e, tal qual um Nietzsche, buscará o verdadeiro Super-homem, que agora imbuído de valores efetivamente transcendentes, poderá trazer um nível de realização consistente para nossos espíritos tão necessitados de experiências interessantes e gratificantes. Assim como no conto de Dostoiévski, Elon Musk faz o mesmo papel do homem ridículo, por não perceber o quanto equivocado está com sua tecnologia enquanto não enxerga a verdadeira natureza singular do ser humano.
Entender nossa natureza ímpar somente pode ser almejada pela via da perspectiva mística, tão solapada nesses tempos de “algoritmos santificados”. A verdadeira ascese do homem parece que ocorrerá quando acordarmos desse sonho paradisíaco e nos percebermos detentores do nobre valor que está na capacidade de oferecer juízos morais e éticos consistentes, frutos de um senso crítico de natureza filosófica único em toda a criação a que pensamos saber. Não me parece que seja investindo cada vez mais energia na “automação de sinapses” que um dia migraremos para esse novo patamar de realizações mais positivas da experiência humana, vulgarmente conhecido como felicidade.
Que todos os “Elon Musks de plantão” por aí possam logo cruzar com o pensamento místico, vergando-se à teurgia e à tão desafiadora taumaturgia. Apenas assim, tal qual um Hitler que um dia desastrosamente isso o fez, possamos também novamente ter a oportunidade de trilhar o verdadeiro caminho, que é o de buscar alterar a realidade através da nossa própria determinação.
Dia virá em que também perceberemos a avassaladora evolução que haverá onde dormirem juntas ciência, arte, filosofia e teurgia. Isso sim parece fornecer a verdadeira alteração da realidade da qual tanto precisamos.
E a isso chamamos Magia. 🦋
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Leitura recomendada:
O Sonho de um Homem Ridículo
(Edição em Português) – Fiódor Dostoiévski