Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei?
Um ensaio sobre paradoxos da Magia e a tal Justiça Divina.
A expressão “tudo é lícito, mas nem tudo me convém” é uma das minhas passagens bíblicas preferidas, embora não muito proferida ou ao menos pouco interpretada. A frase originalmente presente no livro de 1 Coríntios 10:23, teria sido proferida por Paulo de Tarso, naquela altura já o apóstolo Paulo.
Ela pode ser interpretada de diversas maneiras e aplicada em diversas situações da vida. A primeira parte da frase sugere que não existem restrições ou proibições que nos impeçam realizar qualquer ação, ou seja, tudo seria (a princípio) permitido. No entanto, a segunda parte da frase indica que, mesmo que algo seja lícito, pode não ser apropriado ou benéfico para quem esteja tomando a decisão.
A frase também nos faz refletir sobre a real importância de avaliar consequências das nossas ações, avaliando se elas são benéficas ou prejudiciais para nós e aos outros. Nos lembra também que devemos considerar nossos próprios valores e consciência coletiva ao tomar decisões, em vez de seguir apenas as normas sociais estabelecidas ou a opinião da maioria.
No contexto filosófico e religioso, a frase é ainda frequentemente interpretada como um alerta para evitar a tentação e os supostos “pecados”. Neste contexto, a liberdade concedida pela deidade não deveria ser usada como desculpa para comportamentos inapropriados ou imorais.
A escolha sempre é nossa.
É fundamental atentar que cada ação tem uma consequência e que as escolhas sempre são nossas. Em muitas áreas da vida a frase também pode ser aplicada. Por exemplo, no ambiente de trabalho, ela pode ser usada como um lembrete de que nem todas as oportunidades são adequadas para nós. Embora possamos ter habilidades para realizar determinadas tarefas, é importante avaliar se elas estão alinhadas com nossos objetivos e valores pessoais.
No âmbito dos relacionamentos, essa frase nos lembra que nem todas as pessoas podem ser adequadas para nós. Podemos ter a liberdade de nos relacionarmos com quem quisermos, mas é importante avaliar se a pessoa é compatível conosco e se o relacionamento é saudável e benéfico para ambas as partes.
No entanto, é importante lembrar que o espírito da frase não deve ser usado como uma desculpa para justificar comportamentos egoístas ou prejudiciais para os outros. Sempre é de bom tom termos em mente que a liberdade individual deve ser equilibrada com o respeito aos outros, ao conjunto das leis e das normas sociais.
Embora nos preocupemos em cumprir esse conjunto de premissas do contrato social, todos os dias nos defrontamos com situações onde essa conduta não é observada, por vezes nos atingindo cruelmente, o que desperta ressentimentos, mágoas e toda sorte de emoções. Para muitos, é aí que entra a justiça divina…
O que seria essa tal de “justiça divina”?
Um conceito presente em diversas religiões e filosofias se refere a justiça divina como o modelo de como a deidade absoluta (Deus?), supostamente opera em relação aos seres e suas ações. Essa crença sugere que Deus seria justo e equitativo em todas os contextos, agindo em acordo com sua plena bondade e sabedoria.
Para aceitar seu fundamento é necessário um razoável esforço para se levar em conta que esta justiça não se limitaria apenas as punições e recompensas, mas também incluiria no seu “juízo” toda misericórdia e amor divino. Além disso, acredita-se que ela julgaria cada um em acordo com suas ações e recompensaria ou puniria de forma justa.
Para muitos apesar de tão alardeada, a justiça divina parece difícil de ser aceita em várias situações e com toda razão, até porque considerando que a deidade sendo onisciente e conhecedora de todas as circunstâncias, não seria afetada por influências externas ou preconceitos.
Embora subjetiva e desprovida de qualquer evidência na vida real, por esse prisma a crença na justiça divina oferece conforto e esperança para aqueles que buscam a buscam como verdade, acreditando que mesmo em meio à dor e sofrimento Deus estaria presente em suas vidas agindo sempre de forma justa e amorosa.
Mas será que temos mesmo essa compreensão?
Embora tenhamos desenvolvido um senso crítico razoável de julgamento, percebido por nós como correto e lícito pela perspectiva humana, isso de fato não pode ser alcançado, embora possamos ver como “corretas” ou “certas” determinadas circunstâncias de aplicação da sincronicidade desta justiça divina, simplesmente o restante de toda a “criação” aparentemente operara por outras perspectivas.
No fundo, a nossa insatisfação com as recorrentes situações e casos de injustiça vistos a todo segundo por aqui, residem justamente nessa incompreensão, ou seja, temos um viés próprio do que seja justiça, embora todo o restante do cosmos aparentemente opere por outros vetores de “justiça”.
Portanto, um entendimento maior (ou melhor) do que seja a tão propalada “justiça divina” ainda está muito, muito longe da nossa realidade como todos podemos perceber em nossas próprias experiências de vida. Ao que pensamos saber, o tal senso de “justiça” em níveis mais “cósmicos” estaria associado bem mais ao “equilíbrio” e não diretamente a qualquer noção terrena personalizada de moral ou ética.
Por essa perspectiva, qualquer desequilíbrio na criação seria passível automaticamente de ajuste, que quando aplicado, tenderia a nivelar excessos de qualquer ordem ou monta, independente de seu contexto.
Dito isto, vamos ao caso da aplicação, ou melhor “emanação” desse “equilíbrio”, como nós Magos preferimos rotular a tão propalada justiça divina.
Uma realidade é inescrupulosamente injusta…
Em nossa realidade dentro desta criação indevida, basicamente existiriam três maneiras de se ativar e/ou emanar os fluxos da deidade sobre qualquer situação (a coisa observada) por qualquer ser dentro do contexto (a consciência do observador):
- Polaridade Positiva: que é “passiva” por natureza e agirá sempre a partir do que o observador e a coisa observada detém em si no momento.
- Polaridade Negativa: que é “ativa” por natureza agindo independente do que observador e a coisa observada trazem em si no momento.
- Polaridade Neutra: que é indefinida e tomará forma a partir dos estados da própria polaridade que o observador e a coisa observada detém no momento.
Assim, absolutamente todo trabalho, atividade, criação, ação ou o que possa imaginar dentro desta realidade indevida, acontecem apenas e somente a partir destes princípios de polaridade, segundo nossas observações. E pelas informações que temos no campo da Magia, em outras realidades isso ocorre de maneiras adicionais, mais simples e/ou mais complexas, mas por aqui as coisas sempre acontecem assim.
Dessa maneira todas as sete emanações divinas primevas que dão sustentação vibratória a tudo e todos – a saber: fé, amor, conhecimento, justiça, lei, evolução e geração – podem (e devem) ser absorvidas por aqui pela via das três polaridades comentadas acima. Não vamos nos aprofundar nessas emanações para não alongar ainda mais o raciocínio neste artigo.
Seguindo esses princípios, quando qualquer consciência que por aqui esteja, operar qualquer ato da experiência do existir, seja qual for e em qualquer circustância, nada mais está fazendo do que ativando essas emanações (a consciência observadora), dentro de uma determinada polaridade (positiva, negativa ou neutra), para uma determinada circunstância (a coisa observada).
Tanto faz se isso é um pensamento, um beijo, um abraço, uma casa, um vento, uma maré, um planeta ou todo um universo… Absolutamente tudo que existe, existe somente pela ativação consciente de vibrações vivas e ditas divinas, que a tudo dá sustentação, todo o tempo.
O desconhecimento dessas premissas existenciais por parte das consciências mergulhados nas múltiplas realidades dos mundos manifestados – com destaque para o ser humano neste planetinha – pode dificultar sobremaneira a realização das suas “experiências do existir”, construindo assim desavisadas realidades desinteressantes, que são basicamente o nosso caso e com todas as letras…
Ao final das contas a nossa própria ignorância sobre esses fundamentos, seja por isolamento ou qualquer outro motivo (e existem vários), fez com que os seres humanos por aqui desenvolvessem um conjunto de valores próprios do que sejam as grandes virtudes da existência (as sete citadas acima), que por absoluta falta de opção, condição ou entendimento, nos forçaram a criar percepções próprias de justiça para acomodar nossas necessidades pontuais conforme as circunstâncias (as coisas observadas) necessitavam ou demandam regras para sua gestão, as coisas do convívio da vida.
Nosso entendimento de “justiça” portanto é um desses casos, pois diferentemente do que acreditamos por aqui, o “senso” de justiça cósmica parece operar por outro viés que em nada tem a ver com nossa moralidade, ética ou senso crítico desenvolvido pontualmente por uma raça específica, não importando suas conveniências, posto que estamos inseridos no “todo” sendo sua parte indissociável e inseparável.
A problemática da justiça no contexto da Magia
Quando um Mago(a) ou qualquer outra pessoa passa a compreender ou ao menos considerar essas condições primevas que vão muito além de suas conveniências e circunstâncias, alinhando-se com esses princípios automaticamente “toca” melhor essa “música cósmica”, harmonizando sua experiência do existir dentro do que lhe compete.
Eventualmente, também começa a fazer uso disso nas circunstâncias que lhe envolvem, pacificando assim (e finalmente) seu próprio contexto e tudo que lhe cerca.
Essa seria a verdadeira Magia da vida.
Evidentemente esses princípios estão muito longe de serem se quer considerados pela maioria das consciências que nos cercam, sejam humanas, espirituais, astrais ou até dimensionais; e onde a ignorância impera a dor do convívio em realidades desinteressantes é a pauta, sofrimento e cotidiano.
Finalizando, muitas das falas do Divino Mestre Jesus também foram assimiladas, entendidas ou deturpadas conforme as conveniências, e assim optamos por criar um entendimento particular e muito temperado da lógica humana pelos limites que tínhamos a época e ainda temos.
Assim como as dele, talvez a frase de Paulo possa agora ter algum outro sentido, e também talvez aplicando estas premissas da Metamagia sobre o que seja a justiça divina em nosso cotidiano, eventualmente, venhamos a compreender o por que de tanto desatino, ainda que sejamos tão franca e impetuosamente defensores da “justiça”. Aparentemente essa seria a chave de porque colhemos tão poucos frutos satisfatórios nesta existência.
Em resumo, a expressão “tudo é lícito, mas nem tudo me convém” nos faz refletir sobre a importância de avaliar nossas ações e decisões, considerando as consequências e nossos próprios valores e consciência.
Devemos lembrar que a liberdade individual deve ser equilibrada com a responsabilidade e o respeito pelos outros e pelas normas sociais. A frase de Crowley “faz o que tudo queres, há de ser tudo da lei”, precisa ser ressignificada.
Em tempo: em nossa egrégora praticamos e formamos pessoas apenas e somente com os Mistérios Positivos da criação. Pessoalmente e quando muito, usamos adicionalmente apenas os Mistérios Neutros.
Aparentemente na frase de Paulo está implícita a ressalva de não se dar faca para criança brincar.
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