(Ora, ora…)
Com ares de importância, me autoproclamo uma neófita nas artes da magia. Ah, como soa bem tal denominação. Como fico confortável na posição de alguém que, de um dia para o outro, detém informações veladas, confidenciadas, segredadas dos reles mortais… ora, ora…
Demorei um pouco, mas percebi. Sutilmente, nas entrelinhas das palavras, na profundidade do que é minimamente revelado pelo meu estimado professor, que refuta a titulação de mestre. Ele diz, mas preferimos não ouvir. A linguagem é sutil, quase diáfana… sinaliza que, ao praticar a magia, devemos, antes de tudo, parar, silenciar e ouvir o que nosso mestre de magia tem a nos dizer. E quem faz isso? Realmente?
Será que nossa ansiedade e fome incontrolável de conhecimento nos permitem tal conexão? Será que nosso modo de vida atual, em que o celular – um apêndice de nossa estrutura corpórea – com o fluxo incessante de comunicação e informações de toda ordem, nos permite vislumbrar a beleza e a singularidade da magia? Sentir com todos os poros do nosso corpo a vivência magística?
Acho que não. Não se trata do “procedere“, mas do “vivere“. E o que fazemos? Perguntas e mais perguntas, às quais meu estimado professor pacientemente responde, de maneira abnegada. Questionamentos de toda ordem, afinal, temos que saber sobre ângulos, posições dos elementos, invocações e determinações que devem ser lidas e decoradas sem alteração de uma vírgula, agarrando-nos com unhas e dentes a cada vocábulo peremptoriamente estipulado, procedimentos que devem se manter intocados, para a segurança e proficiência do mago. O que estamos fazendo?
Estamos nos distanciando do mais belo que a Arte traz. Do confiar e se entregar, de corpo e alma, ao que não é visível, palpável, dimensionável e questionável. É o que é. E há uma profundidade e sabedoria absolutamente libertadora nisso. Enquanto isso, no afã de racionalizarmos, questionarmos e procedimentarmos o que é fluídico, natural e Divino, nosso mestre de magia permanece resignadamente aguardando… vez ou outra permitimos que ele sussurre algum ensinamento, mas que é imediatamente obstaculizado, afinal nossa imaginação é muito fértil e não podemos nos livrar das amarras de nossa mente racional. Com certeza nós sabemos mais magia que nosso mestre… ora, ora…
Não se pode olvidar que o procedimento nos foi deixado para que seja seguido. A ativação dos Mistérios depende disso (será mesmo?). As determinações têm estrutura preestabelecida, o rito já foi exaustivamente praticado e serve de amparo ao mago nos caminhos insondáveis do universo magístico. Mas não nos aprisionemos. Vamos permitir que o inexplicável e Divino aconteça. Está tudo aí. As informações já foram transmitidas. Vamos viver a magia… e deixar nosso mestre (no meu caso, mestra) trabalhar…
Ora, ora…
Por Daniela Galvão – Maga da Escola de Magia